quinta-feira, 23 de outubro de 2008

"The Wild Angels" (1966, dir. Roger Corman)

Eu tinha 7 anos de idade quando vi esse filme pela primeira vez. Nunca comprei uma moto nem usei adereços nazistas para chocar a sociedade, mas o impacto de ver Peter Fonda de jaqueta de couro e óculos aviator discutindo com um padre e questionando o papel da sociedade e da religião deixou marcas indeléveis na minha mente. Acho que foi nessa madrugada, vendo filmes escondido de meus pais na extinta TV Manchete, que perdi minha inocência e tornei-me um homem.

Hoje, 22 anos depois, o filme não parece mais tão assustador quanto naquela época, mas ainda guarda boas surpresas. Segundo o próprio Fonda, o germe de "Easy Rider" já estava aqui, e foi inspirado por esse filme que ele escreveu o roteiro do filme de motoqueiros definitivo, aquele que retratou com fidelidade a desilusão e o lado sombrio dos anos 1960. Enquanto Nova York curtia Woodstock, a California tinha Altamont. The Wild Angels e Easy Rider são retratos dessa outra realidade.

A história do filme é simples: os Hells Angels de San Pedro vão até o México recuperar a moto de um deles que havia sido roubada. Há uma briga em uma oficina mecânica, que chama a atenção da polícia. Na fuga, o motoqueiro Loser (Bruce Dern), amigo do líder da gangue, Blues (Fonda), foge na moto de um dos policiais. O outro tira o persegue pela estrada, e atira em suas costas. Levado o hospital, Loser é resgatado por seus companheiros, mas acaba morrendo no esconderijo praiano da gangue. Seu corpo é levado até a cidade onde ele nasceu, a bucólica e arborizada Sequoia Groves. Em um caixão ornado por uma bandeira nazista, Loser é velado, e um padre é chamado para fazer o serviço. Quando ele começa a falar sobre Deus e a vida, Blues se levanta e questiona o que ele diz. Começa então uma grande festa na igreja, com tudo que uma orgia de motoqueiros tinha direito nos anos 1960: congas, surf music, bebidas, estupros, e dancinhas malucas. Eles então levam o corpo de Loser até um cemitério para finalmente enterrá-lo, mas são seguidos por uma multidão de curiosos. Começa uma briga, e os motoqueiros fogem quando ouvem a sirene da polícia. A namorada de Blues pede a ele que fuja com ela, mas ele responde: "Não há para onde ir". As motos fogem pela floresta enquanto a polícia chega, e Blues se resigna a pegar uma pá e começar a enterrar o amigo morto.

Comportado para os padrões hollywoodianos de nossa época, o filme provocou muita polêmica quando de seu lançamento -uma especialidade de seu diretor e produtor, o lendário Roger Corman. Proibido no Reino Unido, só foi lançado na ilha da rainha em 1971, com severos cortes. Nos EUA, Corman foi processado pelos próprios Hells Angels, que o acusaram de ter feito uma imagem distorcida do grupo.

O destaque da história fica por conta da relação "amorosa" entre Blues e sua namorada Mike (Nancy Sinatra). Depois da morte de Loser, Blues torna-se melancólico e distante. Esse clima do personagem vai ser posteriormente a semente de Capitain America em Easy Rider.

A trilha sonora tem alguns bons momentos, nas mãos do lendário (para mim) Davie Allan e sua banda The Arrows, especialmente no hit "Blues' Theme". O single chegou ao número 37 da parada da Billboard, onde permaneceu por 17 semanas. Foi a primeira música que Eddie Van Halen aprendeu a tocar na guitarra.

Fiquei reparando na trilha e vendo como em 1966 ainda era absurdo pensar em distorção. Nas cenas mais loucas, onde os motoqueiros quebram tudo, a música parece uma versão instrumental de alguma música dos Beach Boys com bongôs e congas. Aliás as congas aparecem nesse e em vários outros filmes da época como um símbolo de pura selvageria. Vai entender. 3 anos depois, a trilha de Easy Rider já seria completamente diferente, misturando folk, country, psicodelia, overdrive e fuzz.

Quanto à iconografia nazista, os motoqueiros dessas gangues usavam esses símbolos para chocar as pessoas. Até onde constam os alfarrábios, nenhuma dessas gangues tinha qualquer espécie de envolvimento com política ou ideologias, e só queria saber de curtir, beber, transar, fumar maconha, e pilotar as máquinas. No começo do filme um homem diz "nós costumávamos matar caras que usavam essas coisas", ao que os motoqueiros respondem... nada. A origem disso deve estar no fato de que essas gangues da California nasceram logo após o fim da II Guerra Mundial, quando os soldados que voltaram bastante perturbados do front se recusavam a se misturar na sociedade, preferindo ficar de fora do esquema e curtir sua depressão em paz.

2 comentários:

marcello disse...

gostei da sua análise sobre a história, a época dos anos 60, em especial os comentários sobre a trilha sonora e a própria reação dos Hells Angels sobre o filme.

ódio disse...

eu prefiro esse ao Easy Rider.