Até hoje, "Vá e Veja" era apenas um título na minha memória. Quando esse filme foi lançado, em meados dos anos 1980, eu era apenas uma criança, e não estava preparado para compreender nada do que ele significava. A censura não me permitiria vê-lo, talvez por causa das cenas de violência, talvez por causa das cenas de verdade.
O filme de Elem Klimov é passado na Bielorrússia, na véspera da invasão do território pelos soldados alemães na II Guerra Mundial. No filme, acompanhamos a trajetória do menino Florya Gaishun, que abandona a família para se juntar à guerrilha de resistência de sua pequena aldeia na zona rural. Os alemães atacam, e Florya se perde do grupo.
Estrategicamente, o filme se concentra em apenas um garoto, e em apenas um vilarejo para contar sua história. Depois de nos fazer compreender o que significou todo o horror daqueles eventos, um letreiro no final nos informa que o que acabamos de testemunhar ocorreu não uma, mas centenas de vezes naquele país. A Bielorrúsia é a fronteira lesta da Polônia, e era a principal porta de entrada dos alemães rumo à União Soviética. O país ficou sob o domínio dos nazistas entre 1941 e 1944. Nesse período, os alemães destruíram 209 das 290 cidades do país, e destruíram mais de 600 vilarejos rurais. Os nazistas também destruíram 85% das indústrias emais de um milhão de edifícios, causando perdas humanas estimadas entre 2 e 3 milhões de pessoas (de 1/4 a 1/3 da população total do país).
É sempre interessante ver um filme de II Guerra que não conte apenas o ponto de vista dos estadunidenses ou dos ingleses. A história é sempre contada do lado dos vencedores, e dificilmente temos a oportunidade de ver um filme sobre os massacrados da guerra. Geralmente o que vemos são heróis bem armados e em veículos bonitos, esbanjando coragem e inteligência. Poucas pessoas fazem filmes sobre o verdadeiro horror da guerra.
Um dos poucos que se dedicam a isso em nossos tempos, e que certamente é um fã de carteirinha de "Vá e Veja" é Steven Spielberg, que certamente se inspirou nesse filme para "O Resgate do Soldado Ryan", mais especificamente na famosa seqüência inicial.
Depois disso tudo, o título do filme permace de certa forma misterioso. A frase "vá e veja" não é dita hora nenhuma no filme - é praticamente uma mensagem direta do diretor ao espectador, declarando abertamente o seu objetivo ao fazer esse filme.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
"Vá e Veja" (1985)
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
"Devil's Angels"
Acordei num puta mau humor, com jet-lag de horário de verão, telefone tocando, interfone, o diabo. Voltei pra cama por volta das 9 da manhã - isso é o que dizia o relógio, na verdade eram só 08:00 - e liguei a TV para ver se espantava os maus espíritos.
Foi quando vi no Telecine Cult os créditos iniciais de "Devil's Angels" (1967), produzido por Roger "Nunca Dei Prejuízo" Corman e estrelado por John "Faces" Cassavettes.
É um filme de motoqueiros na linha de "The Wild One" com o imortal Brando, e que na minha cabeça faz dupla com outro filme de Corman com Angels no título: "Wild Angels", de 1968, estrelado por Peter Fonda, que já tinha trabalhado com Corman em "The Trip". Esses dois filmes inspiraram Fonda a escrever "Easy Rider".
Quatro filmes de motoqueiros com uma coisa em comum: retratar, bem ou mal, os niilistas e pós-existencialistas não-intelectuais dos Estados Unidos de meados do século XX. São filmes que nos recordam que até mesmo os incultos têm o direito de não acreditar em nada - e que por isso mesmo serão sempre perseguidos até a morte pela polícia e pela igreja.
Trilha sonora memorável de Davie Allan & the Arrows.
Beverly Adams parece um sonho como Lynn, a namorada de Cody (Cassavettes) - ela é a gostosa Cassandra de "Como Encher Um Biquíni Selvagem".
domingo, 31 de agosto de 2008
Com apenas 1 ano de atraso... Oscar 2007!
Assisti recentemente a dois filmes que concorreram ao Oscar 2007. De todos os filmes que concorreram naquele ano, eram dois dos únicos poucos que eu fiquei com vontade de ver algum dia.
Dreamgirls (2006, dir. Bill Condon)
Dreamgirls é baseado em um musical da Broadway dos anos 1980. Se eu soubesse disso antes, jamais teria perdido meu tempo vendo o filme. Mas já que a ignorância nos fazer as coisas mais loucas, acabei encarando as três horas de duração do filme. Na verdade são apenas 130 minutos, mas parecem mais.
O problema básico do filme é que o roteiro e a edição foram feitos tendo em mente o público adulto feminino estadunidense, ou seja: muito detalhe e cuidado nas roupas e nas cenas de amor, e absolutamente nenhum compromisso com a verdade, fatos históricos, ou alguma espécie de estrutura narrativa. Em resumo, é um filme de emoções baratas e músicas ruins, que estragam o que poderia ter sido um épico musical dos mais interessantes. A história, baseada mal e porcamente na trajetória da gravadora Motown, é uma picaretagem danada que mistura biografias reais com fatos misturados, deixando os "inspiradores" do texto com o filme sujo na praça.
A Dreamworks, produtora do filme, afirma veementemente que o roteiro é totalmente ficcional, e se recusa a admitir o óbvio: Curtis é Berry Gordy, as Dreamettes são as Supremes, C.C. é Smokey Robinson, e o personagem de Eddie Murphy é uma mistura de Jackie Wilson com Marvin Gaye.
O maior problema do filme é que nenhum desses talentos da vida real aparece realmente nos filmes. Nos contemporâneos "Way" e "Walk the Line" você ouve as músicas originais, e elas são excelentes, capazes de salvar qualquer roteiro ruim ou edição picareta. As músicas de "Dreamgirls" são apenas musiquinhas medíocres da Broadway, e as cantoras principais cantam se esgoelando o tempo todo, como se estivessem competindo por uma medalha de ouro. Elas fazem tanta força para modular a voz o máximo de vezes possível em cada sílaba da letra que a gente fica até sem fôlego. E quando você faz um filme musical onde o seu melhor cantor é o Eddie Murphy, é sinal de problemas.
No Country For Old Men (2007, dir. Joel Coen & Ethan Coen)
Sempre um oásis no grande deserto que se tornou o cinema estadunidense, os irmãos Coen fabricam dois tipos diferentes de filmes: aqueles que eles são pagos para fazer, e aqueles em que eles realmente se concentram. É fácil perceber qual é qual só de assistir os filmes ou de ver a lista de atores. E esse é um dos "bons".
A maior crítica que eu ouvi a esse filme foi a de que o final é aberto e não explica nada. Aparentemente, as pessoas acham que, se o filme não termina com uma perseguição em alta velocidade e um bandido sendo preso ou morto, o final é aberto. Não é bem assim que funciona.
Eu já atingi um zen cinematográfico tão elevado que para mim até mesmo o final de "Blow Up" é fechado o suficiente para me satisfazer. Pois o final de "No Country For Old Men" é bastante adequado. O filme não conta a história de um policial que persegue um bandido. Ele é uma reflexão sobre a profissão de policial, a natureza do crime, e várias outras coisas que não podem ser resolvidas com tiroteios e explosões.
Sempre bebendo na fonte do mestre Hitchcock, os irmãos Coen criam nesse filme um McGuffin clássico: uma mala cheia de dinheiro, encontrada por um caipirão meio cowboy. Ele a encontra no meio de um monte de traficantes mortos, e pega o dinheiro para tentar melhorar de vida com sua esposa. Surge em cena um assassino profissional que começa a persegui-lo, e cria-se então um triângulo dramático entre o assassino e seus contratantes, o homem com a mala cheia de dinheiro, e um xerife que persegue o assassino por causa de outros crimes, e tenta ajudar o homem da mala.
O que acontece nesse imbroglio todo eu não posso contar senão estraga o filme, mas preciso reafirmar que o final não é nada aberto. Ele é apenas real demais para satisfazer o público mais ingênuo. As pessoas esperam que um filme funcione como uma luta livre encenada, onde o bom vence o mau e a justiça sempre triunfa. Acontece que a vida real não é assim. Ela é fragmentada, não-linear, e depende muito mais das ações das pessoas do que de conceitos como justiça, verdade, pureza, honra, glória e outras baboseiras. Se no final desse filme você ficar frustrado porque o vilão não morreu nem foi preso, você não entendeu nada. Volte para o começo e tente novamente. Ou então assista "Zodiac", do David Fincher.
Vou fechar esse comentário com uma citação que vem bem a calhar, e que tem me ajudo muito a compreender o vastíssimo e complicado universo do cinema:
porque a ficção precisa ter algum sentido."
- Mark Twain
domingo, 13 de julho de 2008
Frank Sinatra, o ator
Eu conheços muitos fãs do Frank Sinatra. Mas todos eles sempre falam sobre as músicas. Não tenho nada contra elas, mas, pessoalmente, sempre preferi o Sinatra ator do que o cantor.
Vou explicar.Tudo comeou quando vi "The Man With the Golden Arm" (1956, dir. Otto Preminger) pela primeira vez. Desconfiado da presença de Sinatra no papel de um baterista viciado em heroína, confiei na direção de Otto Preminger e não me decepcionei. A atuação de Sinatra é precisa e comovente, e fica difícil imaginar que o estúdio havia reservado o papel para Marlon Brando. Nada contra Brando, mas depois de ver o filme com Sinatra, fica difícil imaginar qualquer outro ator em seu lugar.
Esse filme não é tão famoso quanto deveria. Para exemplificar o quanto ele é forte e pertinente, basta dizer que, em 1956, mostrar uma pessoa tomando heroína em um filme era mais do que impensável. O filme não conseguiu ser lançado até o ano seguinte de sua produção, quando modificações no "código de ética" de Hollywood permitiram que ele recebesse um lançamento oficial da indústria. Até então, temas como drogas, incesto e estupro estavam proibidos de ser mostrados e discutidos em filmes.
A história é simples e comovente: o baterista de jazz Frankie Machine, viciado em heroína, precisa ganhar dinheiro para sustentar sua esposa paralítica, que ficou aleijada por culpa dele. Nos velhos tempos ele costumava ganhar dinheiro da máfia trabalhando como croupier em mesas clandestinas de poker. Quando ele decide largar tudo e dedicar-se exclusivamente a tocar bateria, os mafiosos o convencem, com a ajuda da heroína, a continuar dando as cartas mais um tempo, e ele fica preso nesse círculo vicioso sem ter chance de escapar. Até que... não, desculpem, não vou contar o final.Reforcei minha admiração pelo Sinatra ator ontem à noite, quando finalmente consegui rever um clássico que sempre me escapuliu: "The Manchurian Candidate" (1962, dir. John Frankenheimer). Nesse filme, soldados que voltaram da Guerra do Coréia começam a ter sonhos idênticos e perturbadores, e começam a desconfiar de que foram vítimas de lavagem cerebral.
Se eu soubesse sobre o que esse filme realmente se tratava, eu o teria visto há muito mais tempo. A lavagem cerebral é apenas o ponto de partida de um esquema muito mais sinistro, envolvendo senadores, imprensa, e a eleição do próximo presidente dos EUA. Tudo isso misturado a relações psicológicas muito esquisitas entre um herói de guerra, sua mãe, seu padrasto, sua ex-namorada, e um mordomo chinês.
Para vocês terem uma idéia do impacto do filme na época de seu lançamento, ele foi proibido em muitos países da Cortina de Ferro, como Polônia, Tcheco-Eslováquia, Hungria, Bulgária, Romênia, e até mesmo em países ditos "neutros" na época da Guerra Fria, como Finlândia e Suécia. Na maioria desses países, o filme só foi liberado em 1993, depois da separação da União Soviética.
Infelizmente, em pleno ano de 2008 esse filme continua atual e assustador. Não que eu acredite que os soldados americanos estão sendo capturados pelos inimigos e tendo suas mentes lavadas e reprogramadas por comunistas chineses e russos - é que agora eles não precisam mais ir tão longe para que isso aconteça. Depois que a guerra fria acabou, quem é o verdadeiro inimigo?
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Easy Rider (1969)
Easy Rider (1969)
Dirigido por Dennis Hopper
Escrito por Peter Fonda, Terry Southern e Dennis Hopper
Fotografia de Lazlo Kovacz
Existe uma lista muito seleta onde apenas alguns poucos filmes conseguem entrar: a lista dos filmes que todo mundo já ouviu falar, nunca assistiu, e tem certeza de que sabe como eles são, mas estão completamente enganadas a respeito deles. Easy Rider faz parte dessa lista.
Ao contrário do que parece, esse não é um filme sobre os loucos anos 60. Não é uma ode à liberdade e nem um manifesto a favor das drogas. É tudo isso ao contrário: foi feito por cineastas e atores que estavam com o saco cheio dos anos 60, e não agüentavam mais participar de filmes sobre drogas e motoqueiros. Foi o grande ícone desse estilo de filme, Peter Fonda, que iniciou o projeto, tentando criar um anti-filme-de-motoqueiro. É por isso que o cartaz do filme não tem motos muito loucas nem mulheres nuas dançando: mostra seu personagem, o Capitão América, observando calmamente o horizonte do deserto. Seu personagem e o Bufallo Bill de Dennis Hopper são metáforas muito óbvias do assunto do filme. Um deles, de aparência moderna, traz uma grande bandeira dos EUA na jaqueta, e outra pintada no tanque da moto. Seu parceiro é o ícone do cowboy, do pioneiro que desbravou o oeste em meio a índios, mexicanos e búfalos. Ele tipifica o sentimento original dos estadunidenses, perdidos e livres pelas pradarias montados em seus cavalos. Em busca desse sonho fantasioso e romântico, a dupla cai na estrada em busca da América que seus pais lhe prometeram.
Se eles encontram isso ou não, você vai ter que ver o filme até o final para descobrir.
Esse filme é uma espécie de "show dos Rolling Stones em Altamont" do cinema. Essencial para compreender os anos 1960, mas de uma maneira cruelmente verdadeira. Se você gosta de morar no passado, fique longe desse filme.
terça-feira, 6 de maio de 2008
Kubrick explica 2001
"You begin with an artifact left on earth four million years ago by extraterrestrial explorers who observed the behavior of the man-apes of the time and decided to influence their evolutionary progression. Then you have a second artifact buried deep on the lunar surface and programmed to signal word of man's first baby steps into the universe -- a kind of cosmic burglar alarm. And finally there's a third artifact placed in orbit around Jupiter and waiting for the time when man has reached the outer rim of his own solar system. When the surviving astronaut, Bowman, ultimately reaches Jupiter, this artifact sweeps him into a force field or star gate that hurls him on a journey through inner and outer space and finally transports him to another part of the galaxy, where he's placed in a human zoo approximating a hospital terrestrial environment drawn out of his own dreams and imagination. In a timeless state, his life passes from middle age to senescence to death. He is reborn, an enhanced being, a star child, an angel, a superman, if you like, and returns to earth prepared for the next leap forward of man's evolutionary destiny."
terça-feira, 22 de abril de 2008
"19 Coisas que eu Aprendi com os Filmes"
por Pradeep /tradução: Daniel Poeira
1. Se você está sendo perseguido pela cidade, você sempre pode se esconder em um desfile do Dia de São Patrício. Em qualquer época do ano.
2. Todas as camas têm lençóis com um formato especial que conseguem cobrir o corpo de uma mulher até a altura das axilas, mas que deixa os homens descobertos até a cintura.
3. Todos os sacos de loja de comida têm uma baguete aparecendo.
4. Depois de aplicado, o batom nunca sai - mesmo se você mergulhar no oceano.
5. Todos os prédios têm um sistema de ventilação que permite que você se esconda dentro dele. Ninguém nunca vai pensar em procurar dentro dele, e você ainda pode se deslocar até qualquer outra parte do prédio sem dificuldades.
6. Se você quiser fingir que é um oficial ou soldado alemão, não é preciso saber falar alemão. Basta usar um sotaque.
7. A Torre Eiffel pode ser vista de qualquer ponto de Paris.
8. Um homem não demonstra nenhuma dor ou agonia quando está sendo espancado, mas sofre muito quando uma mulher cuida de um ferimento seu.
9. Quando você sai do taxi, não é preciso olhar dentro da carteira para escolher uma nota. Qualquer nota serve - você sempre pega o dinheiro no valor exato da corrida.
10. Se você perde uma mão, o cotoco deixa seu braço 15cm mais comprido.
11. Todas as mães cozinham ovos, bacon e waffles para a família no café da manhã, apesar do marido e dos filhos nunca terem tempo de comê-los.
12. Carros e caminhões que batem sempre explodem e pegam fogo.
13. Um único fósforo é suficiente para iluminar uma sala do tamanho de um estádio de futebol.
14. Na Idade Média, todo mundo tinha dentes brancos e bonitos.
15. Todas as mulheres solteiras têm um gato.
16. Qualquer pessoa que tiver um pesadelo vai acordar, pular da cama, ficar sentada, e arfar muito.
17. Um homem atirando em 20 homens tem mais chance de matá-los todos do que 20 homens atirando em um homem sozinho.
18. Sempre que você ouvir uma música sinistra vindo de um cemitério, você tem que entrar para investigar.
19. Quase todo mundo tem um caderno de recortes de jornal, especialmente aquelas pessoas que tinham algum parente ou amigo que morreu em um estranho acidente de barco.
